O futuro das corporações: do greenwashing à cultura ESG

Você certamente já ouviu falar de ESG e de como algumas empresas têm buscado adotar práticas mais sustentáveis para atender aos anseios de seus consumidores. Mas será que o discurso dessas organizações está mesmo alinhado às suas ações?

O termo ESG (environmental, social and governance) não é novo, surgiu em 2004 em uma publicação do Pacto Global (ONU). A partir de 2020 esse conceito ganhou visibilidade por garantir aos fundos verdes (fundos com premissas socioambientais) um crescimento duas vezes maior do que o restante do mercado, chegando a 1 trilhão de dólares. Com o olhar dos investidores voltado para a escala da sustentabilidade, as empresas começaram uma corrida para atingir metas ESG, mas muitas vezes, de forma superficial, sem atingir o cerne da questão.

Lavagem verde

Muitas organizações adotaram um discurso correto e investiram pesado em publicidade pensando em atrair investimentos e consumidores, mas não abraçaram mudanças significativas ou transformadoras em sua cultura organizacional. Companhias com essa postura fazem a chamada ‘lavagem verde’ ou greenwashing.

Um exemplo desta prática seria uma empresa do setor têxtil que faz apenas o necessário para conseguir licenças ambientais, mas não se preocupa com a cadeia de fornecedores, permitindo que estes usufruam de trabalho análogo à escravidão. Ao mesmo tempo, esta empresa dedica esforços e recursos para divulgar campanhas de equidade de gênero, mas não possui diversidade em seu quadro de liderança. A empresa busca assumir uma imagem verde mas, na prática, não realiza ações verdadeiras e condizentes com a propaganda feita aos consumidores. O risco desta postura é claro!

O papel das novas gerações

Empresas que têm apenas o lucro como propósito certamente precisarão rever sua atuação se quiserem garantir a longevidade de seus negócios. Isso porque a geração dos Millennials (Geração Y/1980-1995) e a Geração Z (1995-2010) buscam consumir de marcas que tenham valores semelhantes aos seus, apoiando causas relacionadas à defesa dos direitos humanos, combatendo à desigualdade social e garantindo a diversidade no ambiente de trabalho.

Uma pesquisa realizada pelo instituto Union + Webster aponta que 87% dos brasileiros das novas gerações preferem comprar de empresas sustentáveis e 70% destes consumidores não se importa em pagar mais caro por produtos feitos por empresas sustentáveis. Esses jovens idealistas serão 74% dos profissionais em 2030, portanto não podem ter seus anseios ignorados pelas organizações.

Virada da Chave

Mas como as empresas podem ‘virar a chave’ de uma cultura meramente capitalista – em que se objetiva o lucro acima de tudo – para uma cultura ESG – que visa harmonizar os interesses de todos os stakeholders (trabalhadores, clientes, fornecedores e investidores)?

O professor da Harvard Business School, George Serafeim, acompanhou e pesquisou os aspectos ESG em milhares de empresas e traz uma luz sobre a questão. Ele faz cinco recomendações para que as lideranças se antecipem a esta tendência e possam usufruir dos benefícios tangíveis desta prática:

1 – Adotar práticas estratégicas ESG;
2 – Criar estruturas de responsabilidade para integração ESG;
3 – Identificar um propósito corporativo e construir uma cultura em torno dele;
4 – Fazer mudanças operacionais para garantir que a estratégia ESG seja executada com sucesso;
5 – Se comprometer com a transparência e a construção de relacionamento com os investidores.

E é nesse sentido que a cultura ESG deve estar alinhada à visão de futuro do negócio, pois diz respeito não apenas ao marketing de causa e à imagem da marca, mas à ética, aos direitos humanos e ao meio ambiente.

Esses valores devem estar enraizados no propósito das organizações e envolver todos os níveis da empresa, mas sobretudo a liderança. A prática ESG deve estar presente na operação, mas também na estratégia do negócio, não é possível desvincular essas esferas.

Finalmente, empresas que derem o passo em direção aos critérios ESG ganharão marketing share e produtividade, terão seus riscos reduzidos, conseguirão mais investimentos, fidelizarão consumidores e se tornarão protagonistas do futuro sustentável.

Silvia Elmor
Jornalista, especialista em marketing, co-fundadora do Instituto Ser Sustentável. Mãe do Theo, feminista e determinada a reduzir o impacto negativo que a minha geração (X) causou ao planeta.

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O quão importante são os fatores ESG no Agro

Confio muito nesta revolução. Esse terremoto que veio de encontro com o mercado. Essas três letras que trazem em seu cerne tudo o que deveríamos já a muito tempo ter colocado em prática, poderá nos trazer grandes desafios. Acredito que devemos ser sábios e junto a este antigo conceito, praticar lições apreendidas com crises passadas.

Digo antigo conceito, pois desde sempre a humanidade se viu imbuída em manter no radar o cuidado com o Meio Ambiente, sua Sociedade e com a Governança de nossas vidas pessoais e profissionais.

Estamos vivendo um momento bastante particular, pois necessitamos ter ciência e conhecimento para saber como produzir, alimentar e abastecer a pessoas a nível mundial.

Também entendo que países que consigam alimentar sua própria população e ainda exportar terão grande vantagem. Terão soberania sobre os demais.

Especialmente voltada ao mundo do agronegócio, o tema de predição em toda a cadeia produtiva, deverá ser forte aliado nesta questão, afinal teremos que produzir cada vez mais alimentos e com maior segurança alimentar.

Neste sentido a agricultura brasileira tem grandes perspectivas. Observa-se mais e mais a introdução do conceito ESG dentro de todo o ambiente do Agro. Recebemos cada vez mais pressão externa de investidores para divulgação do desempenho ESG de nossas companhias.

Temos mais e mais clientes interessados em comprar de empresas focadas em sustentabilidade, o que significa que o aumento do público em geral quanto à conscientização sobre sustentabilidade é maior a cada dia.

É notório que parte do setor do agro já vem abraçando iniciativas para combater os impactos negativos que geram em função de suas atividades produtivas e de negócio.

Que fique o alerta e o foco de que para um setor tão estratégico como o Agro, não é possível deixar de considerar os aspectos ambientais, sociais e de governança. Não é uma opção, não é possível ficar de fora. O que vem ganhando manchetes e causando mobilização no mundo empresarial deve ser posto em prática. ESG agora!

 

Cris Baluta

Co-Fundadora Instituto SER e CEO da Roadimex Ambiental

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Investidores ESG buscam mercados emergentes e desafiam céticos

Um número crescente de gestores em finanças verdes agora busca mercados que geralmente não são associados à sustentabilidade.

Gestores de fundos no Norte da Europa, onde investimentos com foco na proteção do meio ambiente se tornaram predominantes, começam a olhar muito mais longe para encontrar ativos baratos que, segundo eles, acabarão por cumprir seus objetivos ambientais, sociais e de governança, ou ESG na sigla em inglês.

A unidade de gestão de ativos do Nordea Bank, que administra US$ 450 bilhões, está entre as empresas que testam a estratégia e acaba de lançar um fundo voltado para ativos ESG em mercados emergentes.

“Sentimos que era uma ideia atraente”, disse Thede Ruest, responsável por mercados de dívida emergente na unidade de gestão de investimentos do Nordea, em Copenhague.

Sua aposta é que a estratégia forneça “rendimento ligeiramente melhor sem correr muito risco”. Também espera que “faça diferença onde possivelmente importará mais”.

O “Global Green Bond Fund” do Nordea investirá pelo menos 70% em títulos verdes, enquanto o restante será aplicado em títulos convencionais emitidos por empresas sustentáveis, bem como dívida social e atrelada à sustentabilidade. Do total do fundo, cerca de 20% está atualmente alocado em mercados emergentes.

“Sem sentido”

Gestores de ativos que já fizeram o dever de casa na busca por investimentos sustentáveis em mercados emergentes dizem que o ESG definitivamente ganha espaço, mas depois de um começo difícil.

“No passado, muitas empresas nem sabiam o que significava a sigla ESG”, de acordo com Burton Flynn e Ivan Nechunaev, gestores da Terra Nova Capital, que assessora o fundo Evli Emerging Frontier. “Quando explicávamos, muitos retrucavam, dizendo que não fazia sentido e alguns riam da gente.”

Os dois se lembram de uma reunião de 2019 na qual uma diretora financeira “olhou para nós, sem expressão, quando perguntamos sobre sua política ESG”. Depois de explicar o que era, “ela caiu na gargalhada”. O presidente de uma bolsa de valores em outro mercado de fronteira “perguntou sarcasticamente: ‘Vocês realmente acreditam em energia eólica?’”.

Mas as coisas mudaram e agora é “muito raro” encontrar empresas que não estejam cientes das demandas feitas por investidores ESG, segundo Flynn e Nechunaev.

Ao mesmo tempo, investidores de mercados emergentes estão mais seletivos em meio aos temores de volta da inflação. O índice MSCI Emerging Markets acumula queda de quase 10% desde a máxima em meados de fevereiro.

Greenwashing

Ruest, do Nordea, diz que uma grande preocupação agora é que algumas empresas não são tão verdes quanto afirmam.

“É um pesadelo nos expor ao greenwashing”, disse em referência à prática de maquiar metas ambientais. “Esse é um dos maiores medos que tenho.” Ele diz que investidores de renda fixa tendem a conseguir mais proteções do que outros, mas gestores de ativos ainda precisam encontrar seu próprio teste decisivo para evitar padrões falsos em ESG.

“O que sempre buscamos é ter credibilidade no emissor, queremos ver planos confiáveis em toda a transição do emissor”, disse Ruest.

Mas há uma linha segundo a qual empresas de mercados emergentes têm, na verdade, menos probabilidade de serem acusadas de greenwashing do que seus pares nos mercados desenvolvidos.

Isso porque estão sob menos pressão para divulgar métricas ESG e não estão acostumadas a fingir que são mais virtuosas do que realmente são, de acordo com Karine Hirn, sócia-fundadora e diretora de sustentabilidade da East Capital, em Estocolmo.

Mercados de fronteira tendem a fornecer oportunidades “incríveis” para investidores ativos com foco em ESG, disse Hirn. Ela desenvolveu um sistema de classificação que mede a transição esperada de uma empresa rumo a um modelo de negócios mais sustentável para orientar as decisões de investimento.

Em vez de buscar nomes estabelecidos, diz: “Você quer investir em empresas que estão melhorando em termos de ESG”.

Fonte: Bloomberg

 

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